quinta-feira, 11 de setembro de 2014
"De céu azul a céu cinza-fumo, no espaço de minutos. Ouvimos o segundo avião, baixo e barulhento, e vimo-lo embater. Vimo-lo depois outra vez na televisão. Tentei compreender, mas não era capaz. Assim que soubemos que a Maisie tinha ido buscar a Aven ao infantário da Little Red School House, na Sexta Avenida, na West Village, que o Oscar não tinha ido para Brooklyn nesse dia, que o Ethan estava no seu apartamento de Williamsburg, que a minha Cleo, o único elemento da prole Kleinfeld que vivia em Nova Iorque, estava de facto no seu escritório no Brill Building no Centro, que o Phinny e o Ulysses e o Barómetro ainda não se tinham levantado da cama, observámos pela janela os ventos a carregarem o pó enfermo sobre Red Hook. Fechámos as janelas contra o fedor inenarrável e passámos grande parte do início da tarde a tratar do Barómetro. (...) os delírios cosmológicos do homem andavam aos pulos e trambolhões; pois o fumo, as explosões, os papéis a voarem, o plástico pulverizado e a carne lançaram-no num estado de instabilidade ininterrupta, pontuado por gestos hirtos e mecânicos.
(...)
O assassínio em massa não o afectava. Estava perdido em fantasias de poder e controlo, que aquele dia estilhaçara ou confirmara (não sei muito bem qual das duas)."
Siri Hustvedt in "O Mundo Ardente"
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