segunda-feira, 22 de outubro de 2012



Poderei escrever como começo um gesto? No tempo em que o movimento começa não há ainda coreografia. Sentir, sem saber o que os músculos já sabem: contrair ou não contrair. Estender.
Como posso fazer gestos apenas com a escrita que não sei? Como posso dizer dos dedos às palavras e procurá-las como quem tacteia? O meu corpo lembra-se primeiro da dança, por isso, muitas vezes, é-me difícil falar e escrever. Peço à escrita para não me calar a vontade de poder escrever mais vezes o que somatizo, o que me dói e inquieta e revolta, o que me emociona, o que me move.
Às vezes é como se  as palavras pesassem demasiado no que quero dizer e, de tanto as escutar pela opinião que têm, demoro-me na expressão e procuro outras formas de comunicar.
Numa mesa redonda há espaço para ideias, sensações e sentidos envolvidos por olhares, gestos e intensidades, em diálogo e em circulação entre todos. No texto por escrito há tinta e há gravidades concentradas (de quem escreve e de quem lê). ‘Talvez pudesse dançar primeiro e pensar depois’ disse E. E. Cummings. Mas como? se o gesto é sempre pensamento - sim, que também sente e sente e por isso se move. Talvez pudesse escrever primeiro e pensar depois. De cada vez que quero escrever peso tudo o que quero dizer e fico atarefada na actividade de observar, de pesquisar outras observações, de pensar e pesar. Trágico, porque generoso seria atarefar-me a escrever enquanto peso, para assim poder discutir ideias e valor em diálogo convosco. Ensaiar e experimentar.
Como tentar seriedade, expressão e espontaneidade ao mesmo tempo?
A dança morre e morde o espaço em cada gesto. Tentar ser mais ágil. Escrever à mão. Escrever como começo um gesto.  ?  Começar para escrever.


Ah......... tentar ser mais espontânea e menos analítica. Se para mim estar na leitura já é uma forma de escrita, é como se escrever fosse sempre uma segunda ou terceira leitura: voltar a lêr para voltar a re-apreender. Atormentar-me. Dizer então o que pergunto, e sinto, num determinado momento sobre este mundo onde estamos.

  




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