terça-feira, 22 de julho de 2014



"Comprei depois três jornais: O País, A Luta e A Época. Abro O País, onde se diz no artigo de fundo que há na vida dos povos certas crises surdas e em estado latente, que aguardam um momento oportuno  para, com retumbante fragor, se denunciarem na aparente limpidez e serenidade do ambiente, acrescentando que a alma nacional portuguesa atravessa uma dessas crises. Aludindo à nação, diz-se neste mesmo artigo que "diante do corpo inerte de um moribundo todos devem ajoelhar-se". É um artigo que respira morte. A seguir, numa entrevista com um monárquico, fala-se da bancarrota e de intervenção estrangeira. Deixo O País e pego n'A Luta. Este, para não falar de Portugal, fala do Kaiser. E o artigo de entrada de A Época intitula-se "O problema da felicidade".
(...)
Entretanto vai e vem gente desta cidade (...). E um observador satisfeito poderia dizer ao vê-los: "Este é um povo como todos os outros; aqui não acontece nada." E, não obstante, o povo desta mesma terra, Portugal, é um povo triste.
(...)
Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. (...) Desejam talvez viver, sim, mas para quê? Mais vale não viver. (...) "Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada (...). Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa."
(...)
"É claro, eu sou português e portanto filho dum povo que atravessa uma hora indecisa (...)."



Miguel de Unamuno in "Portugal, Povo de Suicidas"
"Um Povo Suicida", Lisboa, Novembro de 1908
citações dentro do texto: Manuel Laranjeira em carta a Miguel de Unamuno

"Portugal, Povo de Suicidas"
1ª edição portuguesa: &etc
2ª edição portuguesa: Livraria Letra Livre, 2008
3ª edição portuguesa: Abismo, 2010


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